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domingo, 10 de janeiro de 2010



Bela aimagem do que simboliza "ser Poeta" por Charles Baudelaire
poema extraído da obra Les Fleurs du Mal)

L'albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albratos, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les grouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de lázur, maladroits et honteux,
Comme des avirons traîner à côte d'eux.

Ce voyageurs ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


(Tradução por Ivan Junqueira)

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio em desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

PENÉLOPE

a balbúrdia do dia:
sua secreta gaiola,
que lhe tecia Toda
em arestas de sonho e
sopro.
Fugaz,
seus dedos transmutam
a perplexidade das auréolas
e seu fim.
As mãos apenas,
sem estapafúrdio ou alarde,
acendem o rumorejo de sustos:
(já agora) fossilizados em
mutismo.

O MESTRE DO GROTESCO E DO ARABESCO

Poe, o crítico literário

Além de poeta e ficcionista, Edagr Alan Poe foi também crítico de literatura, desenvolvendo, nesse âmbito, alguns princípios teóricos que nortearam sua produção literária e que se inscrevem no espírito da poesia moderna.
Entre os textos de crítica, o mais célebre é a Filosofia da Composição, publicado em 1846, em que o autor explica como o poema O Corvo veio à luz, explicitando as estratégias discursivas que ele empregou durante a composição do texto, com o fim de conferir-lhe o efeito de espontaneidade e beleza.
Ao preconizar que o texto literário é fruto de um trabalho racional, que obedece a leis de criação específicas, Poe rompe com ideias, predominantes em sua época, acerca do processo de composição artística. No momento em que Poe escreve esse ensaio, o cenário literário estava impregnado pela noção romântica de gênio criador, que compõe à revelia da inspiração, entendida como uma faculdade de natureza sobrenatural ou divina que impulsiona a criação poética. Em consonância com essa ideia, predominava também a concepção kantiana, segundo a qual o gênio artístico é um dom, um talento inato ao poeta, que, ao criar, não se submete a nenhuma lei ou regra pré-determinada. Assim, seria impossível estabelecer, racionalmente, a gênese do processo criador, devido ao seu caráter fortuito e irregular.
Em A filosofia da composição, E. A. Poe demonstra o contrário. Segundo o autor d' O corvo, o texto literário obedece a uma organização racional dos elementos formais, arranjados de modo a conferir unidade ao texto. Além disso, segundo Poe, os efeitos de terror, beleza ou espontaneidade são premeditados pelo poeta que, para suscitá-los no momento da leitura, utiliza-se de recursos linguísticos e da organização formal do texto, que são cuidadosamente pensados à luz das expectativas do receptor da mensagem.
Assim, para Umberto Eco, ao defender essas ideias, Edgar Allan Poe reabilita a lição aristotélica esquecida pelos românticos, segundo a qual os episódios da trama narrativa devem estar de tal modo concatenados formal e semanticamente, que confiram unidade à intriga.
Se, por um lado, como defende Eco, o texto de Poe reabilita um cânone clássico, por outro, preconiza novos paradigamas que norteiam a chamada escrita moderna. Ao defender que a criação literária deve ser acompanhada de auto-reflexão, Edgar Allan Poe anuncia ideias de poetas como Mallarmé, Paul Valéry, ou mesmo, João Cabral de Melo Neto, que defendem que a escrita literária, realizada lúcida e criticamente, deve se esforçar por eliminar o fortuito e o acessório. As ideias de que os efeitos de sentido que o texto lietrário suscita no momento da leitura são resultado da combinação e organização de recursos formais, como o metro, o léxico, o ritmo, estão no cerne das reflexões sobre Teoria Literária do século XX (vide o formalismo russo, o conceito de Jakobson de funçaõ poética, etc).
Desse modo, as ideais que germinaram na obra de Poe e que foram, posteriormente revisadas e ampliadas pela escrita e pela teoria literária do século XX, revelam-nos que o processo de composição poética exige um trabalho reflexivo e crítico, a partir do qual o escritor converte-se em leitor de si mesmo.

O MESTRE DO ARABESCO E DO GRATESCO: 200 anos de Edgar Allan Poe

No ano de 2009, amantes de histórias que combinam elaboração formal e uma atmosfera de mistério e suspense celebram o bicentenário de vida daquele que é considerado "o pai do conto moderno", Edagar Allan Poe.
Nascido em 1809, em Boston, Poe possui uma biografia que, bem ao estilo dos poetas malditos, combina tragédias, vícios e genialidade. Filho de atores ambulantes, Poe fica órfão aos três anos de idade, passando a viver sob os cuidados de um tutor, o próspero comerciante de Richmond, John Allan, de quem adotou o sobrenome Allan.
Durante a infância, o poeta recebe uma educação consistente, ingressando na Universidade de Virgínia, aos dezoito anos. No entanto, devido ao envolvimento com o álcool e com o jogo, E. A. Poe abandona a vida universitária, tentando, posteriormente ingressar na Academia Militar, da qual é expulso por indisciplina.
Dividindo-se entre trabalhos como editor de revistas e a vida errática de alcoólatra e jogador compulsivo, Edgar Allan Poe publicou narrativas, poemas e ensaios, que lhe renderam o póstumo reconhecimento. Entre seus principais trabalhos, destacam-se os famosos "Contos do Grotesco e do Arabesco", "As aventuras de Arthur Gordom Pym", o ensasio "A filosofia da composição", no qual Poe explicita o processo de elaboração de seu mais célebre poema "O corvo".
Assim, mais de 150 anos após a sua morte, o mestre das narrativas de terror e suspense conserva o seu frescor e sua relevância como autor de uma obra original, cujas ressonâncias fazem-se sentir em muitos contornos assumidos pela escrita moderna.
Diante disso, eu gostaria de apresentar em um tom, que pretendo não-didático nem academicista, apresentar algumas facetas assumidas por Poe em sua obra, destacando a sua produção como crítico e pensador de Literatura e como "criador" do gênero conto na modernidade.