A longa pausa entre a postagem anterior e essa mais recente é o resultado, dentre outros motivos,do meu convencimento, ainda que temporário, de que eu não sei escrever ou de que não há nada a ser dito que não o tenha sido por gente infintitamente melhor do que eu.
Mas então eis que hoje, numa das minhas corriqueiras crisisnhas existenciais, vem à superfície, trazido não sei por que acaso, o trecho de um livro lido há tanto tempo que eu imaginava que todas as suas impressões, na época da leitura tão intensas, tivessem esmaecido sob o tumulto de impressões e lembranças mais recentes (o que mais uma vez mostra que o Proust tem razão quando fala da memória involuntária, aquela memória que, por um objeto ou sensação insuspeita, pode de repente desenrolar o torvelinho das nossas lembranaças mais recônditas). Pois bem o autor do tal trecho é o alemão Rilke, cuja obra poética eu conheço pouquíssimo diga-se de passagem, mas que ficou marcado na minha vida como o autor do célebre raciocínio segundo o qual um poeta só é poeta de verdade quando não pode prescindir da escrita, sua razão de viver ou morrer. E não que eu queira equivaler-me à altura vertiginosa do "autêntico poeta" pintado por Rilke, mas é que essa tarde eu conclui simplesmente que, quando eu não escrevo, eu apodreço de tédio, na vida pasmaceira que é a vida dos fatos.
Por fim, me ocorre agora que esse preâmbulo talvez seja menos a tentativa de dar conta desse lapso de tempo enorme do que a busca de uma resposta para pergunta que, mesmo inarticulada, sempre se insinua: pra que escrever? Num caso e noutro, as tentativas de explicação racional e ponderada são antes uma forma de falseaar do que de apreender os tácitos motivos que movimentam esses trechos inauditos de nossas vidas íntimas. E isso, caros, já é matéria que ultrapassa os estreitos limites desse esforço de racionalização, para se converter em matéria-prima da Arte e da imaginação. Vamos até elas então.
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O MESTRE DO ARABESCO E DO GRATESCO: 200 anos de Edgar Allan Poe
No ano de 2009, amantes de histórias que combinam elaboração formal e uma atmosfera de mistério e suspense celebram o bicentenário de vida daquele que é considerado "o pai do conto moderno", Edagar Allan Poe.
Nascido em 1809, em Boston, Poe possui uma biografia que, bem ao estilo dos poetas malditos, combina tragédias, vícios e genialidade. Filho de atores ambulantes, Poe fica órfão aos três anos de idade, passando a viver sob os cuidados de um tutor, o próspero comerciante de Richmond, John Allan, de quem adotou o sobrenome Allan.
Durante a infância, o poeta recebe uma educação consistente, ingressando na Universidade de Virgínia, aos dezoito anos. No entanto, devido ao envolvimento com o álcool e com o jogo, E. A. Poe abandona a vida universitária, tentando, posteriormente ingressar na Academia Militar, da qual é expulso por indisciplina.
Dividindo-se entre trabalhos como editor de revistas e a vida errática de alcoólatra e jogador compulsivo, Edgar Allan Poe publicou narrativas, poemas e ensaios, que lhe renderam o póstumo reconhecimento. Entre seus principais trabalhos, destacam-se os famosos "Contos do Grotesco e do Arabesco", "As aventuras de Arthur Gordom Pym", o ensasio "A filosofia da composição", no qual Poe explicita o processo de elaboração de seu mais célebre poema "O corvo".
Assim, mais de 150 anos após a sua morte, o mestre das narrativas de terror e suspense conserva o seu frescor e sua relevância como autor de uma obra original, cujas ressonâncias fazem-se sentir em muitos contornos assumidos pela escrita moderna.
Diante disso, eu gostaria de apresentar em um tom, que pretendo não-didático nem academicista, apresentar algumas facetas assumidas por Poe em sua obra, destacando a sua produção como crítico e pensador de Literatura e como "criador" do gênero conto na modernidade.
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