
Aos cinéfilos, para os quais a imagem cinematográfica está para além da oferta de entretenimento, o ano de 2010 representou a perda de um dos grandes mestres do cinema de arte contemporâneo: Eric Rohmer. Falecido aos 89 anos, em janeiro, Rohmer foi, ao lado de nomes como François Truffaut e Jean-Luc Godard, um dos cineastas inovadores que compuseram a "Nouvelle Vague", movimento que ajudou a imprimir um novo estilo à narrativa fílmica, nos anos 50.
Há alguns dias, "percorri" o ciclo de filmes que integram, ao lado dos "Contos Morais" e "Comédias e Provérbios", mais uma das célebres séries do cineasta: os "Contos das quatro estações". Essa série, que, sem parecê-lo, associa o ciclo da natureza ao comportamento humano, sintetiza alguns dos aspectos que tornaram único e original o estilo do cineasta francês.
Com sutileza e sensibilidade, Eric Rohmer propõe-se a narrar histórias, a priori, banais, de personagens investidos de tal realismo, que mais parecem pessoas, a cujo desenrolar de dúvidas, angústias e questionamentos o espectador assiste. E é justamente, através desse "banalismo", que Rohmer consegue captar todo o insólito, todo o extraordinariamente poético que envolvem os eventos da vida de seus personagens, dando-lhes abertura para refletir acerca de densas questões filosóficas, como moral, fé e verdade. É assim com a impetuosa Jeanne, a professora de Filosofia do "Conto de outono", para quem o grande mistério é que, mesmo dispondo de dois apartamentos, ao fim de uma festa, ela não tem onde dormir. É assim também com a Felice do "Conto de inverno", que, em meio às atribulações do cotidiano, vivencia o epifânico que é, em alguns instantes, ter toda a sua existência revestida de um repentino e cristalino sentido.
E, nesse desvalamento de mistérios e epifanais, o grande acontecimento dos filmes de Rohmer é que seus personagens pensam, se questionam e se angustiam, justamente porque nunca estão certos de nada: eles nunca sabem a quem devem amar; por quem ou pelo que se interessar; para onde e com quem ir. Já foi dito que, enquanto os personagens, em Hollywood, choram, lutam, espionam, atiram, explodem, correm, os personagens de Rohmer apenas pensam e, para isso, falam. Nos "Contos das quatro estações", os personagens, para invocar o sentido do sentem e do que se enrola à sua volta, tagarelam o todo tempo todo, até que. De repente, o fortuito e o involuntário intervém em suas vidas, confrindo-lhes cores e sentidos novos.
É por isso que, das poéticas e pensantes imagens elaboradas por Eric Rohmer, sempre emerge a revelação do quão milagrosa e emocionante é a vida.
Estou tonto com sua análise sobre esse diretor, que confesso não conhecê-lo, coisas de pobres mortais como eu. Já estou esperando seu próximo texto, serei seu seguidor, claro....
ResponderExcluirBjão e até mais...
Desculpa pelo internetês...