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sábado, 6 de março de 2010

O Ser selvagem da História: a última aventura poética de Virgínia Woolf

A propósito de (re)leitura

Segundo Otto Maria Carpeaux (História da Literatura Ocidental, p.2588), “Virgínia Woolf não precisa de enredo; este é o pretexto para revelar a presença de passados inteiros e mundos inteiros num momento do fluxo de consciência ou subconsciência dos personagens, que não são personagens propriamente ditas e sim aspectos de personagens”. Inserindo-se, assim, no panorama da literatura do século XX, que tem como referência o binômio Proust-Joyce, Virgínia Woolf revolucionou a estrutura da narrativa tradicional, revelando o nomadismo da consciência humana e a precariedade da estrutura mnemônica do tempo.
Com seu último romance, Entre os atos, a escritora londrina encerra brilhantemente sua trajetória literária, apurando os diversos recursos e temas que compuseram sua escritura: a torrente poética que decompõe a linguagem realista; o confronto entre tempo físico e tempo psicológico (ideal); a História como movimento elíptico e não-linear.
Ambientado em 1939, Entre os atos, que transcorre em um dia (a exemplo de Mrs. Dalloway), narra o curso de uma peça teatral, encenada por e para a população de uma pequena localidade da Inglaterra rural.
A peça representada narra, de modo não-contínuo, a História da Inglaterra (e por extensão, da Humanidade), desde seu Nascedouro, atravessando a era de Elizabeth I e seu esplendor, até o fragmentado presente. Nos intervalos, entre os atos da peça, a autora desvela os dramas pessoais daqueles que, outrora platéia, tornam-se personagens da narrativa: Isabella, esposa de Giles Oliver, sente-se atraída pelo fazendeiro Haines, enquanto o marido deseja Mrs. Manresa; o sensível e recalcado artista William Dodge; a religiosa Mrs. Swithin e seu irmão Oliver. Compondo essa galeria de personagens, a Miss Trobe (em certos aspectos, alter-ego de Virgínia) é a autora e diretora do espetáculo que, com poucos recursos e tendo como cenografia o próprio ambiente campestre, se propõe ao audacioso projeto de reconstituir e desconstruir a trama da História.
Ao longo da narrativa, a representação teatral subverte a dialética do tempo histórico e nos revela que Miss Trobe (e também de Virgínia) concebe a História como um movimento descontínuo e sem sentido próprio de situações que se repetem, no espaço liminar e frágil entre selvageria e civilização.
Ao término do espetáculo, Miss Trobe, frustrada, refugia-se solitária em um bar, onde bebe pelo malogro de mais um projeto. Encarnação do artista, fadado ao desassossego de jamais dizer plenamente, senão pelo silêncio, Miss Trobe é também Virgínia Woolf que, após ter implodido os diversos limites da narrativa ficcional, também sai de cena solitária. No seu caso, pela solidão mais aterradora: a Morte.

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